segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Mas que tiuquetiuquetiuque...


Bem, vamos logo a crônica:

Por que é que as pessoas fazem tiuquetiuquetiuque para os nenês? Nunca entendi isso. Não tem sentido fazer tiuquetiuquetiuque. Um adulto parece meio abobado agindo assim. Durante muito tempo, via alguém fazendo tiuquetiuquetiuque e imaginava o que o nenê devia estar pensando sobre aquela pessoa.

Então isso é um adulto?

É assim que vou ficar quando crescer?

Quero voltar para as trevas úmidas das entranhas da minha mãe!!!

Algumas mulheres não fazem tiuquetiuquetiuque, mas falam com o bebê como se fosse o bebê falando com elas, usando voz de falsete, miada:

- Aaaah, aguoooora eu quero cuooolo, não quieeero mais ficar nesse berço chaaaato...

- Devolve o meu biiiiico!

- Estou com fuome, mamããããe!

Isso sempre me irritou. Eu, agora, com o meu filho no colo, tento desenvolver um relacionamento digno com ele. Como sei que ele será desembargador, puxo conversas sisudas. Sobre a CPMF, a licença pedida pelo Renan Calheiros, essas coisas. Só que, dias atrás, aconteceu algo pelo qual não esperava. Trazia o Bernardo no colo, falávamos sobre a abordagem que o Cesare Cantu faz da Alta Idade Média, quando ele olhou bem para mim com aqueles olhões arregalados dele, e a boquinha dele foi se contraindo, e seus lábios se puxando para cima, e ele me lançou um sorrisão e, junto com o sorrisão, saiu da pequena garganta dele a maior gargalhada que ele deu até agora, uma gargalhada tão gostosa, tão sonora, tão limpa e doce, que sorri e fiz aaaah e, sem que percebesse, sem que pensasse nisso, sem que pudesse resistir, fiz:

- Tiuquetiuquetiuque...

E de novo, mexendo no queixinho dele:

- Tiuquetiuquetiuque...

E mais uma vez, beliscando-lhe as bochechas gordas:

- Tiuquetiuquetiuque...

É isso. Transformei-me num maldito fazedor de tiuquetiuquetiuques.

(Crônica de David Coimbra publicada no caderno Meu Filho, de Zero Hora)

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